
Meu amigo secreto é tudo, menos meu amigo. Ele costuma dizer que está ao meu lado pro que der e vier, que veste a camisa da luta em prol das mulheres e que quer ajudar na desconstrução da sociedade machista, sexista e patriarcal a qual somos condicionadas à humilhações, agressões e inferiorizações todo dia. Mas, na mesa de bar, no futebol com os amigos e na pista de dança na balada ele não defende nossa companheira quando um amigo faz algum comentário machista. Ele costuma afirmar que não entende porque as mulheres disputam a sua atenção e brigam entre si pelo fato de querer ter uma relação com ele. Mas, o que poucas pessoas percebem é que ele coloca uma contra a outra, insinuando que uma fala mal da outra e que tem um nível exacerbado de ciúmes. Ele diz que nós mulheres merecemos ser amadas, não podemos ter o nosso gozo silenciado, velado e crucificado, assim, não devemos nos privar de nos relacionar com outras pessoas que desejamos, só porque estamos em um relacionamento monogâmico. Mas, na verdade, ele só quer propor um relacionamento poligâmico quando convém a ele, porque se ficamos com outros rapazes, estamos querendo fazer ciúmes neles e chamar a atenção. Ele sempre propõe que devemos intensificar nossa relação, fazer novas experiências no âmbito sexual para que isso dê um toque a mais na nossa intimidade. Mas, quando falamos disse, só é proposto ménage à trois (ele e duas mulheres), nunca uma dupla penetração, afinal os fetiches dele em primeiro lugar, né? Ele é do tipo que diz que quando uma mulher gosta de outra mulher é porque nunca teve uma "transa sensacional" com um homem. Mas, isso muda quando ele coloca um vídeo para ver duas mulheres transando só para estimular sua ereção e bancar o famoso 5 a 1. Ele é do tipo que não gosta de usar camisinha para transar, porque isso dificulta uma sensação extrema durante o ato. Mas, é do tipo que acha que toda a responsabilidade é dá mulher e que se algo sair do planejado, ou ele pergunta "quem é o pai?" ou diz "a culpa é sua que não se preveniu". Ele é do tipo "não sou a favor do aborto, se teve idade pra fazer, tem que ter idade pra assumir". Mas, caso sua companheira engravide, ele aborta facilmente, negando ajuda, amparo e presença. Ele é do tipo que diz que todas as mulheres merecem atenção e não devem ser tratadas como mercadorias nos seus longos discursos pró-feminismo no Facebook. Mas, quando sua máscara cai, ele é do tipo que classifica as mulheres em: pra namorar X pra comer. Ele é do tipo que diz (mais uma vez, nas redes sociais e nos círculos da Universidade) que mulher deve fazer o que quiser e ninguém pode se aproveitar disso. Mas nas festas, nos bares e nos encontros de estudantes ele diz que a menina tava bêbada demais e ela se insinuou pra ele, logo, ele não tem culpa de nada, mesmo que a mulher não lembre de nada no dia seguinte. Ele é do tipo que se aproveita da mulher dependendo da roupa que ela usa. E, ainda diz, que a menina estava pedindo por tal assédio. Ele é do tipo que "canta" uma mulher na rua. Mas, quando um outro homem "o canta" na rua, ele se sente ofendido. Meu amigo secreto é o amigo de muitas outras mulheres. Meu amigo secreto tem mais inúmeras outras barbaridades que eu poderia citar aqui para que vocês adivinhassem. Mas, meu amigo secreto é na verdade amigoS, INIMIGOS, secretoS. Não é um só, são vários. Não é somente meu, são de todas as mulheres. Não merecem presentes, merecem denúncias. Não merecem nosso silêncio, merecem nosso grito. Grito de socorro, de guerra e de resistência. Essa hashtag é só o começo. é o meio da nossa luta. É um dos nossos mecanismos. É o caminho pra vitória.
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