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O dia em que resolveram determinar nossa orientação sexual




A sociedade já gosta de regrar a sexualidade feminina, o desejo, quem deseja, quando deseja e determinam quando a mulher deve desejar. Há séculos atrás, sexo só depois do casamento. O gozo feminino pouco importava, o sexo era apenas para satisfazer seu cônjuge e para procriar. O tempo foi passando, o Kama Sutra inovou nas posições, os métodos contraceptivos ganharam espaço no mercado. Mas, ainda assim, quando se falava de sexo a figura feminina ainda era apenas instrumento para que o homem alcançasse seu gozo, sem ao menos se importar se ela gozava. . Até que começaram as discussões calorosas sobre o ponto G. E como sempre o corpo feminino foi exposto e colocado como produto de mercantilização. Cada vez mais, matérias do tipo “Você sabe onde fica o ponto G feminino? Se não, clique aqui e descubra!!”. Tipo aquele jogo dos patinhos, que você precisava clicar para saber onde eles estavam. Como se fosse um instrumento perdido, que se encontrassem, oba, mas, se não encontrassem, continuava o mesmo esquema sexual e, oba, também. As mulheres começaram a expressar seus desejos, assumirem seu papel enquanto ser sexual que goza e faz gozar, que se entrega, que não esperava até o casamento (afinal, muitas nem querem casar!!), que se previnem, se medicam, evitam a maternidade, afinal, ser mãe é escolha e não obrigação social. As mulheres passaram a investir na sua autonomia sexual, masturbação feminina deixou de ser tabu e passou a ser realidade. Mulheres se tocam, mulheres conhecem seu corpo, mulheres induzem os caras a fazer o que mais lhes dão prazer! Mulheres que gostam de outras mulheres passaram a transar com essas mulheres e descobriram que sexo não quer dizer penetração, afinal não é condição “sine qua non”, afinal sem penetração pode ser sim (e é) sexo. As mulheres passaram a querer sexo casual tanto quanto os caras sempre quiseram. As mulheres passaram a evidenciar suas necessidades, seus limites e seu desejo. As mulheres passaram a atuar na sociedade, assumir seu papel no mundo, dar voz não só aos seus direitos, mas também, aos seus desejos. E mesmo assim, mesmo com esse protagonismo, hoje, especialmente hoje, nós mulheres precisamos lidar com uma manchete no jornal que diz “Estudos comprovam que as mulheres ou são bissexuais ou são gays, mas nunca héteros”. Quais estudos são esses? Os mesmos estudos que deixam o protagonismo na mão dos homens? Estudos que promovem a submissão feminina e acreditam que nós somos instrumentos para satisfazer os homens? Estudos que colocam a relação entre duas mulheres não como algo que diz respeito apenas as mesmas, mas sim uma forma de satisfazer e excitar os homens? Quais estudos foram esses? Estudos que legitimam as mulheres enquanto seres sexuais ou estudos que colocam o corpo feminino em espaço de mercantilização para tomar a atenção masculina? Quais estudos são esses que dão mais importância à estatísticas que segregam as mulheres em orientações sexuais mas não buscam caminhos de sanar a repressão que nós sofremos quando nos afirmamos enquanto algo? As mulheres são violentadas verbal e fisicamente todo dia, a cada segundo, e os estudos estão mais preocupados se elas gostam de outras mulheres ou de homens. Enquanto você se preocupa se há mulheres héteros ou não, uma em cada cinco mulheres está sofrendo violência domestica, nesse exato momento. Qual estudo você deve fazer? Isso fica a seu critério.

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